Patrimônio Cultural do Brasil abrange expressões como baião, xote e xaxado, além de instrumentos, festas e conhecimentos associados à cultura forrozeira
(Foto: Amanda Tropicana/Minc/Divulgação)
O som da sanfona se encontra com a marcação
da zabumba e o toque do triângulo. No salão, os pares acompanham a música
enquanto diferentes ritmos se sucedem. Mas o forró não se restringe à música ou
à dança: também está presente nos modos de tocar, ensinar, celebrar e reunir
pessoas. Esse conjunto de práticas integra as Matrizes Tradicionais do Forró,
registradas como Patrimônio
Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan).
Nascidas e consolidadas a partir de práticas
culturais do Nordeste, as matrizes se espalharam pelo território brasileiro
acompanhando deslocamentos de pessoas, músicos e comunidades. Hoje, o bem
possui abrangência nacional e reúne uma comunidade de detentores formada por
cantores, compositores, instrumentistas, dançarinos, artesãos, produtores,
organizadores de festas e outras pessoas que participam da continuidade dessa
forma de expressão.
A própria palavra forró reúne diferentes
significados. Pode denominar a música, um gênero específico, a dança, o baile
ou mesmo o espaço onde a festa acontece. No processo de registro, o
conceito de Matrizes Tradicionais do Forró foi adotado para compreender esse
universo de maneira mais ampla, reunindo ritmos, danças, instrumentos,
celebrações e demais práticas associadas à cultura forrozeira.
Muitos ritmos, uma mesma tradição
Baião, xote, xaxado, arrasta-pé, rojão,
chamego, balanceio e outras formas musicais e coreográficas integram o conjunto
reconhecido pelo registro. Cada uma apresenta particularidades de ritmo,
execução e dança, formando um repertório diverso que se transforma e se
reinventa sem perder sua relação com as matrizes que lhe deram origem.
Entre os instrumentos associados ao forró estão
a sanfona, a zabumba, o triângulo e o pandeiro. A combinação de sanfona,
zabumba e triângulo ficou conhecida como trio pé de serra ou trio gonzagueano e
se consolidou como uma das formações características dessas expressões
musicais. Outros instrumentos, como rebeca, pífano e fole de oito baixos,
também integram diferentes práticas ligadas às matrizes tradicionais.
O patrimônio, porém, não está apenas nos sons
produzidos pelos instrumentos. Também envolve os conhecimentos necessários para
tocá-los e confeccioná-los, as formas de ensinar música e dança, a composição
das canções e as maneiras de organizar festas e encontros. Muitos desses
saberes são compartilhados pela observação, pela convivência e pela transmissão
oral entre diferentes gerações.
É nos salões comunitários, festas juninas,
festivais, encontros de músicos e forrós pé de serra que muitas dessas práticas
continuam acontecendo. Nesses ambientes, tocar, cantar e dançar funcionam
também como formas de convivência, aprendizagem e construção de vínculos entre
os participantes.
Do Nordeste para diferentes regiões do país
As raízes das Matrizes Tradicionais do Forró estão
relacionadas à cultura sertaneja e a diferentes expressões musicais e
coreográficas desenvolvidas no Nordeste. Ao longo do século XX, a circulação de
músicos e a migração de nordestinos contribuíram para que esses ritmos
alcançassem outras regiões do Brasil.
Nesse processo, artistas como Luiz Gonzaga e
Jackson do Pandeiro tiveram participação na difusão nacional de gêneros
associados ao forró a partir de meados do século XX. As gravações,
apresentações e circulação pelo rádio contribuíram para ampliar o contato de
diferentes públicos com musicalidades até então fortemente relacionadas aos
territórios nordestinos.
A expansão, no entanto, não eliminou as
particularidades locais. Em diferentes estados, comunidades de forrozeiros desenvolveram
espaços, grupos, festivais e formas próprias de manter esses conhecimentos em
circulação. O processo de registro identificou a presença das matrizes em
diversas regiões brasileiras e reconheceu o bem cultural com abrangência
nacional.
Construção coletiva
O reconhecimento das Matrizes Tradicionais do
Forró resultou de uma mobilização iniciada pela própria comunidade forrozeira.
O pedido de registro foi apresentado ao Iphan em 2011 pela Associação Cultural
Balaio Nordeste, após articulações envolvendo músicos, grupos culturais,
associações e fóruns ligados ao forró.
O processo reuniu pesquisas, documentação
audiovisual, encontros, fóruns, seminários e escutas realizadas em diferentes
regiões. A participação dos detentores ajudou a delimitar o próprio objeto do
registro e a definir que o reconhecimento deveria abranger não apenas
determinadas músicas, mas o conjunto de práticas que dá continuidade às
matrizes tradicionais.
A noção de “matrizes” também considera o
caráter dinâmico da manifestação. As práticas tradicionais permanecem como
referências para músicos e forrozeiros contemporâneos e, ao mesmo tempo,
passam por transformações e reinvenções ao longo do tempo.
Patrimônio Cultural do Brasil
As Matrizes Tradicionais do Forró foram
registradas em 9 de dezembro de 2021, após aprovação unânime do Conselho
Consultivo do Patrimônio Cultural, e inscritas no Livro de Registro das Formas
de Expressão. O reconhecimento possui abrangência nacional.
O registro considera o forró como uma forma
de expressão que articula diferentes dimensões culturais. Ritmos e danças
convivem com instrumentos, indumentárias, espaços de celebração, conhecimentos
artesanais e modos de transmissão que se relacionam à trajetória das
comunidades que mantêm essas práticas.
Assim, reconhecer as Matrizes Tradicionais do
Forró significa compreender que, por trás de cada sanfona, passo de
dança ou encontro em torno da música, existe uma rede de conhecimentos
compartilhados. É nessa convivência entre quem toca, dança, ensina, aprende,
constrói instrumentos e organiza os espaços de encontro que as matrizes
continuam sendo transmitidas entre gerações.
Com informações do Ministério da Cultura./Brasil 61
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