(Máquinas e equipamentos, alimentos, metais e químicos
lideram lista de setores com entrada livre no mercado europeu)
(Foto: Tânia Rego, Ag. Brasil)
Nesta sexta-feira (1º), entra em vigor, em
caráter provisório, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.
Após anos de negociações, os dois blocos concluíram os trâmites internos e a
troca de negociações, abrindo caminho para o início da redução gradual das
tarifas de importação.
Segundo estimativas da Confederação
Nacional da Indústria (CNI), mais de 5 mil produtos — o equivalente
a mais de 80% das exportações brasileiras para o mercado europeu — devem
ficar totalmente isentos de imposto de importação já a partir de maio.
Desse total, 2.068 itens já não pagavam tarifas, enquanto outros 2.932
passarão a ter a alíquota zerada, sendo:
·
2.714 bens industriais;
·
218 itens do setor alimentício e
matérias-primas.
Entre os produtos que terão redução imediata
de tarifas, alguns setores se destacam:
·
Máquinas e equipamentos (21,8%
do total);
·
Alimentos (12,5%);
·
Produtos de metal (9,1%);
·
Máquinas, aparelhos e materiais
elétricos (8,9%);
·
Químicos (8,1%).
Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Eurostat indicam que o
acordo abrange um mercado com mais de 718 milhões de pessoas e um Produto
Interno Bruto (PIB) estimado em cerca de US$ 22,4 trilhões.
Setores com impacto imediato
Em 2025, a União Europeia importou
US$ 607,7 milhões em máquinas e equipamentos do Brasil. Com o
acordo, os industriais brasileiros vão deixar de pagar 95,8% das tarifas sobre
esse valor imediatamente.
Ao todo, 802 itens desse segmento não
estarão mais sujeitos a tarifas de importação no bloco europeu, incluindo
compressores, bombas e componentes mecânicos.
No setor de alimentos, 468 produtos
passam a ter tarifa zero desde o início da vigência, incluindo subprodutos
animais não comestíveis (como couros e peles, por exemplo), óleo de milho e
extratos vegetais.
Já na área metalúrgica, 494 itens
— entre eles ferro-gusa, chumbo, barras de níquel e óxido de alumínio — também
terão isenção imediata. A lista completa da oferta do acordo pode ser
acessada no site do governo brasileiro.
Implementação gradual
Apesar do impacto imediato, alguns produtos
considerados sensíveis terão redução tarifária gradual. O processo pode
levar até 10 anos na União Europeia e 15 anos no Mercosul. Em
casos específicos, como veículos elétricos, híbridos e novas tecnologias,
o prazo pode chegar a 30 anos.
O árbitro da Organização Mundial do Comércio
(OMC), do Mercosul e do Sistema de Resolução de Controvérsias do Reino Unido, Welber
Barral, destaca que a transição mais longa atende a demandas de ambos os
lados.
“Tanto os europeus quanto os países do
Mercosul pediram mais tempo para que esses setores pudessem se adaptar à
concorrência. Agora é importante que os setores comecem a se preparar para essa
concorrência de qualquer forma e saibam qual é o seu prazo final de
desoneração”, orienta.
A gerente de Comércio e Integração
Internacional da CNI, Constanza Negri, avalia que a indústria
brasileira terá vantagem competitiva no curto prazo, já que mais de 90% dos
cerca de 3 mil produtos brasileiros, com isenção imediata de tarifas de
importação, pertencem à indústria de transformação.
“Quando nós olhamos a entrada de produtos
europeus no Brasil e no Mercosul, essa redução de tarifas acontecerá de uma
maneira gradual e calibrada. A indústria terá um tempo maior de adaptação
e a maior parte dos produtos europeus terão suas tarifas reduzidas em um ciclo
de até 10 anos, na lógica inversa do acesso que os produtos brasileiros terão
ao mercado europeu”, explica.
Vigor provisório
Embora já produza efeitos comerciais, o
acordo entra em vigor de forma provisória. Isso significa que sua
aplicação, neste momento, está restrita à esfera comercial, enquanto
aguarda a ratificação completa por todos os países envolvidos.
Nesta fase inicial, o tratado prevê redução
de tarifas, eliminação de barreiras comerciais e abertura de mercados de
compras governamentais. Outros temas, como desenvolvimento sustentável,
propriedade intelectual e regras regulatórias, ainda poderão ser
incorporados.
O professor do Departamento de Economia da
Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Andrada, observa que o acordo
tem sido mais controverso na Europa do que na América do Sul e, por isso,
ainda não foi ratificado em muitos países europeus.
“Tem fortes restrições e ressalvas,
especialmente por parte de governos como o da França, além de produtores
agrícolas locais preocupados com os impactos dessa abertura para um bloco tão
competitivo nessa área agrícola como é o Mercosul. Em janeiro, o Parlamento
Europeu decidiu solicitar ao Tribunal de Justiça da União Europeia uma
avaliação jurídica sobre o acordo. Na prática isso significa que essa análise
pode demorar até dois anos, o que paralisa essa ratificação plena e completa”,
afirma.
A entrada em vigor marca apenas o início da
implementação. O governo brasileiro ainda deve publicar uma portaria para regulamentar
a distribuição de cotas de importação entre os países do Mercosul,
definindo critérios e volumes para cada membro no âmbito do acordo.
Com informações de Paloma Custódio, Ag. do
Radio