(Foto: Gorete Gama/Jubileu Sul Brasil)
Com
avanço do aluguel, queda de casas quitadas e pressão da especulação
imobiliária, país soma quase 6 milhões de famílias no déficit habitacional;
desigualdade de gênero e raça centraliza debate no setor
Reafirmando
o tema “Vida em Primeiro Lugar!”, a 32ª edição do Grito dos Excluídos e
Excluídas ecoa o grito sobre a crise habitacional brasileira e o perfil
de quem mais sofre com a falta de teto no país. Sob o lema “Na defesa da Terra,
da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”, os
movimentos sociais denunciam o aumento do custo de vida, a disparada dos
imóveis alugados e a financeirização do solo urbano, apontando que a garantia
de uma moradia digna é condição indispensável para a soberania e a
sobrevivência das mulheres.
Dados
da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e de
entidades do setor revelam uma mudança significativa no perfil de ocupação das
cidades brasileiras, marcada pelo encarecimento do custo de vida e pela
financeirização do solo urbano.
Atualmente,
o Brasil registra 5,97 milhões de domicílios em déficit habitacional e outros
27,6 milhões em situação de inadequação (como infraestrutura precária,
adensamento excessivo e insegurança fundiária), segundo a Fundação João
Pinheiro. No centro desse cenário estão as famílias chefiadas por mulheres, que
representam 62,6% do déficit habitacional no país.
A
luta das mulheres pela casa própria
Segundo dados do IBGE, as mães solos constituem 55% das mães brasileiras, sendo a maioria composta por mulheres negras. Um levantamento da ONG Habitat para a Humanidade Brasil destaca o peso do custo de vida para esse grupo: em média, 32% do orçamento vai para o aluguel, 26% para alimentação, 11% para mobilidade e 30% por filho.
A
desigualdade se torna ainda mais severa ao cruzar o fator racial. A
Habitat para a Humanidade Brasil aponta que uma mulher negra pode levar até
sete gerações, o equivalente a 184 anos, para conseguir comprar a casa própria
no país. A estimativa considera um cenário em que a mulher mantenha renda
estável e consiga poupar cerca de R$ 31,62 mensais após arcar estritamente com
despesas básicas (sem gastos com lazer, emergências ou períodos de desemprego)
para adquirir um imóvel de valor médio em uma favela (R$ 69.828,57).
Ao
alcançar a marca de mais de 79 milhões de domicílios, o Brasil vive uma
transição no perfil de moradia. De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, o
percentual de domicílios alugados subiu de 18,4% (12,3 milhões) em 2016 para
23,8% (18,9 milhões) em 2025 — uma alta de 54,1% no número de imóveis
locados.
Financeirização,
especulação e alternativas populares
A
relação entre o direito à moradia e a especulação imobiliária foi debate
central no painel sobre Habitação e Organização Popular, conduzido durante a
programação do Grito dos Excluídos. Evanisa Rodrigues, militante da União
Nacional por Moradia Popular (UNMP) e da Pastoral da Moradia, alerta para o
fenômeno da financeirização e para os impactos da transformação de imóveis em
ativos financeiros de grandes incorporadoras listadas na Bolsa de
Valores.
"A
moradia é a porta de entrada para todos os demais direitos. Vivemos hoje em um
país com uma dinâmica de financeirização muito mais intensa e com maior
violência no trato do espaço urbano", ressaltou Evanisa durante
intervenção a partir do canteiro de obras de um mutirão habitacional na Zona
Leste de São Paulo.
A
análise também reforça como processos de gentrificação, avanço de plataformas
de aluguel por temporada e expulsão da população de baixa renda para periferias
desprovidas de infraestrutura agravam a crise. Dados apresentados indicam que
74% das famílias em situação de déficit habitacional possuem renda inferior a
dois salários mínimos, ficando fora do mercado imobiliário formal.
Frente
a esses desafios, que incluem ainda a emergência climática em áreas de risco e
disputas por orçamentos públicos, os movimentos sociais destacam saídas
baseadas na organização popular. Entre as alternativas citadas estão a produção
por autogestão (como o Minha Casa, Minha Vida Entidades e cooperativas), ações
da Campanha Despejo Zero e a implementação de instrumentos como o Termo
Territorial Coletivo (TTC).
Nas
frentes do campo e da cidade, a resistência ganha voz no protagonismo feminino
e comunitário. Líderes como Zeca, do Movimento Sem Terra (MST), ressaltam o
papel das mulheres no enfrentamento direto na luta pela terra e moradia. Já em
Belém (PA), a liderança comunitária Francisco aponta como intervenções urbanas
de grande porte têm desconsiderado a participação das periferias locais, como
no bairro Terra Firme, local escolhido para as manifestações do Grito dos
Excluídos.
Com
informações de Claudia Pereira - Comunicação Cepast-CNBB e Grito dos
Excluídos/as
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