sábado, 14 de março de 2026

INDÍGENAS DA TI MÃE MARIA BLOQUEIAM ESTRADA DE FERRO CARAJÁS EM PROTESTO CONTRA A VALE

(Mineradora afirma que já respondeu na justiça sobre as alegações e que precisou paralisar as operações dos trens de passageiros e de mineiro até domingo)



(Foto: Divulgação)

Lideranças indígenas da Terra Indígena (TI) Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins, bloquearam a Estrada de Ferro Carajás (EFC) por volta das 18 horas desta sexta-feira (13). A interdição foi realizada por 49 lideranças e permanece na manhã deste sábado (14), como forma de protesto contra a mineradora Vale, acusada pelos indígenas de provocar poluição em rios que atravessam o território durante as obras de duplicação da ferrovia.

O bloqueio ocorre em meio a um contexto de tensão crescente envolvendo impactos ambientais, disputas territoriais e questionamentos jurídicos sobre a legalidade da ampliação da ferrovia operada pela Vale dentro do território tradicional do povo Gavião.

A mobilização acontece após anos de denúncias feitas pelas comunidades indígenas sobre possíveis impactos ambientais associados às obras e à operação da ferrovia. Entre as preocupações apontadas pelas lideranças estão a contaminação de rios, alterações na qualidade da água e a ausência de estudos considerados adequados sobre possíveis efeitos à saúde das populações indígenas.

A Estrada de Ferro Carajás corta diretamente a Terra Indígena Mãe Maria, localizada no município de Bom Jesus do Tocantins, no sudeste do Pará. O território é tradicionalmente ocupado pelo povo Gavião, formado pelos grupos Parkatêjê, Kyikatêjê e Akrãtikatêjê.

Nos últimos anos, a Vale iniciou obras de expansão e duplicação da ferrovia no trecho que atravessa a área indígena. Segundo apontamentos já discutidos em instâncias jurídicas, a operação da segunda linha ferroviária teria sido questionada por ocorrer sem a conclusão de etapas consideradas essenciais no processo de licenciamento ambiental e sem a realização da chamada Consulta Livre, Prévia e Informada às comunidades indígenas potencialmente afetadas.

A situação motivou o ajuizamento de uma Ação Civil Pública contra a empresa Vale e também contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A ação pede a adoção de medidas para suspender a operação da segunda linha da ferrovia no trecho que atravessa a Terra Indígena Mãe Maria até que todas as exigências legais e ambientais sejam cumpridas.

Documentos técnicos relacionados ao processo de licenciamento apontam ainda a existência de pendências quanto ao cumprimento de condicionantes ambientais e à análise do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena, etapa considerada fundamental para avaliar os impactos da obra sobre as comunidades locais.

Além das questões jurídicas, as comunidades indígenas relatam impactos ambientais e sociais associados à ferrovia, incluindo poluição sonora, possíveis alterações na qualidade da água e efeitos sobre a fauna e os recursos naturais utilizados pelas aldeias.

Também existem preocupações relacionadas à saúde das comunidades e à possibilidade de contaminação ambiental. Por esse motivo, lideranças indígenas têm buscado apoio do Ministério Público Federal e de instituições de pesquisa para a realização de estudos toxicológicos e epidemiológicos que possam avaliar eventuais riscos à população.

A mobilização desta sexta-feira ocorre após uma série de reuniões realizadas entre representantes indígenas, a empresa Vale e o Ministério Público Federal. Durante esses encontros, lideranças chegaram a alertar que, caso não houvesse respostas consideradas satisfatórias ou diante de novas irregularidades, poderiam realizar ações diretas na ferrovia, incluindo o bloqueio da linha férrea.

O fechamento da Estrada de Ferro Carajás surge, segundo os indígenas, como uma forma de pressionar pelo cumprimento de direitos constitucionais, entre eles o respeito à consulta prévia prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além da adoção de medidas de reparação pelos impactos acumulados ao longo de décadas de operação da ferrovia no território indígena.

Até a manhã deste sábado, não havia informação sobre previsão de liberação da ferrovia. A expectativa é que o caso avance para novas rodadas de negociação envolvendo o Ministério Público Federal, órgãos ambientais e a mineradora responsável pelo empreendimento.

A reportagem do Portal Correio de Carajás procurou a mineradora Vale para comentar o bloqueio e as acusações feitas pelas lideranças indígenas.
Em nota, a Vale informou o seguinte: “A Vale esclarece que já se manifestou nos autos e que apresentará oportunamente a sua defesa. A Vale desde já reforça que o tema em questão, por ora, não representa impacto operacional relevante. A Companhia reitera seu compromisso com a transparência e com a colaboração com as autoridades, e manterá o mercado informado sobre quaisquer desdobramentos materiais relacionados ao assunto.

Em relação à interdição
A Vale informa que a circulação do Trem de Passageiros teve que ser suspensa novamente neste sábado (14/3) e domingo (15/3) por questão de segurança, devido à interdição da Estrada de Ferro Carajás por integrantes do Povo Indígena Gavião em Bom Jesus do Tocantins, no Pará. A Vale disponibilizará a remarcação de bilhetes ou o reembolso aos passageiros afetados no prazo de até 30 dias, a contar da solicitação.  Mais informações podem ser solicitadas por meio do canal Alô Vale (0800 285 7000). A Vale adotará as medidas cabíveis para garantir a liberação e operação segura da via.

A Vale informa que a circulação do Trem de Passageiros teve que ser suspensa novamente neste sábado (14/3) e domingo (15/3) por questão de segurança, devido à interdição da Estrada de Ferro Carajás por integrantes do Povo Indígena Gavião em Bom Jesus do Tocantins, no Pará.

A Vale disponibilizará a remarcação de bilhetes ou o reembolso aos passageiros afetados no prazo de até 30 dias, a contar da solicitação”.

Com informações do portal Correio de Carajás

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