O jornalismo ganhou uma ferramenta que, caso atinja seus objetivos, resultará em garantias para o bom exercício da profissão, em especial nas situações de violência contra aqueles que cumprem seu papel de informar.

As diretrizes, composição, organização e
funcionamento do observatório estão previstas na Portaria nº 116/2025, publicada esta semana pelo Ministério
da Justiça e Segurança Pública, no Diário Oficial da União.
De acordo com a Secretaria Nacional de
Justiça (Senajus), órgão do MJ ao qual o observatório está vinculado, ele terá,
entre seus objetivos, monitorar ocorrências, sugerir políticas públicas, apoiar
investigações e criar um banco de dados com indicadores sobre os casos.
O observatório será composto por representantes
de diversas secretarias da pasta, bem como por 15 membros da sociedade civil
com atuação comprovada na defesa da liberdade de imprensa e no combate à
violência contra comunicadores.
Fenaj
Entre as entidades que participaram dos
debates visando sua criação está a Federação Nacional dos Jornalistas ( Fenaj).
Segundo a presidente da entidade, Samira de Castro, a exemplo do Conselho
Federal de Jornalistas, essa é também uma demanda antiga da categoria.
“Desde o primeiro momento, o observatório era
demanda da sociedade civil ligada ao campo do jornalismo. A situação se agravou
muito durante os quatro anos do governo Bolsonaro, culminando nos atos de 8 de
janeiro. Foi quando levamos uma proposta inicial ao então ministro da Justiça
Flávio Dino”, explica a presidente da Fenaj.
Segundo Samira de Castro, durante a gestão à
frente do MJ, Flávio Dino deu início à estruturação do observatório. “No
entanto, com a sua saída para o STF [Supremo Tribunal Federal], tivemos de
partir as discussões praticamente do zero com a nova equipe ministerial”.
Entre as contribuições iniciais feitas pela
sociedade civil, estão a elaboração do regimento interno do observatório e a
composição de seu conselho.
Olhar
do Estado
“A criação do observatório representa um
olhar do Estado brasileiro sobre a garantia do direito humano que é o de acesso
à informação. Nunca houve um mecanismo desse tipo, com olhar voltado
especificamente não apenas para jornalistas, mas para comunicadores e pessoas
que garantem direito de acesso à informação a suas comunidades”, explicou
Samira à Agência Brasil.
A entrada do Estado nessa causa, segundo a
jornalista, é um fato muito importante, inclusive para lidar com questões
burocráticas da profissão, quando se torna necessário o enfrentamento à
violência praticada contra jornalistas.
“Diversas entidades ligadas ao jornalismo,
inclusive o Repórteres sem Fronteiras e a própria Fenaj, fazem acompanhamentos
sobre a violência que é praticada contra jornalistas. Nossos relatórios, no
entanto, não têm papel nem peso do Estado. Essa construção com a sociedade
civil é um grande diferencial”.
Políticas
públicas
Ela ressalta a possibilidade de, a partir das
denúncias levadas ao observatório, se construir políticas públicas voltadas
especificamente aos jornalistas, de forma a garantir que exerçam, da melhor
forma, a profissão em suas especificidades.
Para Samira, é também importante para a
proteção dos chamados comunicadores populares, que atuam em áreas não diretamente
ligadas a direitos humanos, mas que também sofrem ameaças. “É o caso, por
exemplo, de repórteres que cobrem políticas locais no interior do país. Antes,
essa proteção estava restrita àqueles que trabalhavam diretamente na área de
direitos humanos”.
De acordo com a dirigente da Fenaj, os grupos
formados no âmbito do observatório ficarão atentos também “à confusão causada
por influenciadores e os pseudojornalistas”, referindo-se a pessoas que, sem
estudo adequado e sem diploma em jornalismo, reivindicam, para si, a profissão.
“Isso se intensificou após o STF considerar
desnecessária a formação acadêmica em jornalismo. A Fenaj sempre defendeu a
profissionalização, claro que dando atenção também aos comunicadores populares,
quando produzem material próximo ao jornalismo, ajudando sua comunidade a ter
acesso a informações relevantes”, acrescentou.
Para a Fenaj, a retirada da obrigatoriedade
de diploma acadêmico para o exercício da profissão tem influência direta na
banalização de uma atividade profissional necessária e estratégica para a
sociedade.
Ela lembra que o próprio presidente do STF,
ministro Luís Roberto Barroso, tem declarado que o Brasil nunca precisou tanto
de uma imprensa qualificada, e que essa constatação veio após o próprio STF ter
retirado o critério mínimo para o exercício da profissão.
“Precisamos retomar essa discussão
urgentemente, em meio a tantos perfis de redes sociais que se autointitulam
jornalistas, emitindo a todo momento todo tipo de opiniões desqualificadas”,
argumentou.
A presidente da Fenaj explica que, para
atuarem no gênero opinativo, os jornalistas precisam estar minimamente
embasados, ouvindo especialistas, não podendo se guiar pelo senso comum nem
pelos achismos.
“Outros atores não se atêm nem mesmo à
realidade do fato para emitir opinião. Opinam sem embasamento sobre questões
que são importantes para a sociedade. Vidas podem ser colocadas em risco também
por conta disso. Sem falar nas práticas criminosas cometidas por eles, quando
pregam intolerância religiosa, racismo, LGBTfobia”, disse.
Fato jurídico
Diante desse cenário, a Fenaj tem buscado se
aproximar dos ministros do STF, a fim de viabilizar um reposicionamento sobre a
questão do diploma. “Na época em que a suprema corte tomou a decisão, não havia
plataformas de redes sociais com tamanho alcance e influência. Esse é um fato
novo que, por si, justifica a retomada e a revisão do julgamento”, argumentou.
“Vivemos atualmente um cenário extremamente
contaminado onde praticam o que chamo de pseudojornalismo. O observatório terá critérios
objetivos de atuação em relação a esse tipo de situação também, mas com base em
referências da academia, que também vai compor grupos de trabalho do
observatório”, acrescentou a dirigente referindo-se aos integrantes do
observatório, que terá, em sua composição, conselheiros públicos, sociedade
civil e por representantes de ministérios como Justiça, Direitos Humanos,
Igualdade Racial e Mulheres.
(Agência
Brasil)
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